Sífilis Congênita no Amazonas (2007–2024): análise descritiva da série histórica
Análise descritiva da série histórica dos casos confirmados de sífilis congênita no estado do Amazonas entre 2007 e 2024, com base nos dados oficiais do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN Net), do Ministério da Saúde.
Este artigo apresenta uma análise descritiva da série histórica dos casos confirmados de sífilis congênita no estado do Amazonas entre 2007 e 2024, com base nos dados oficiais do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN Net), do Ministério da Saúde. O objetivo é identificar tendências, pontos de inflexão e o comportamento epidemiológico da doença, subsidiando o planejamento de ações de saúde pública.
1. Introdução
A sífilis congênita é uma doença infecciosa causada pelo Treponema pallidum, transmitida da mãe para o filho durante a gestação ou no momento do parto. Trata-se de uma condição de notificação compulsória no Brasil, com registros consolidados no SINAN Net.
2. Metodologia
Os dados foram extraídos da planilha oficial do SINAN Net contendo os casos confirmados notificados no Amazonas entre 2007 e 2024. A análise compreendeu:
- Tabulação dos casos anuais e cálculo das variações absolutas e percentuais interanuais;
- Cálculo das medidas de tendência central e dispersão (média, mediana, desvio padrão, mínimo e máximo);
- Segmentação temporal em fases epidemiológicas distintas;
- Elaboração de representação gráfica da série temporal com destaque para os períodos críticos.
3. Resultados
3.1 Panorama geral
Entre 2007 e 2024, o Amazonas registrou 6.209 casos confirmados de sífilis congênita, com média anual de 344,9 casos e desvio padrão de 229,0 casos, evidenciando elevada variabilidade.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Período analisado | 2007 – 2024 (18 anos) |
| Total de casos | 6.209 |
| Média anual | 344,9 casos |
| Mediana anual | 286,0 casos |
| Desvio padrão | 229,0 casos |
| Mínimo (2010) | 100 casos |
| Máximo (2017) | 810 casos |
| Média pré-2015 | 151,4 casos/ano |
| Média 2015 em diante | 499,8 casos/ano |
Tabela 1 – Resumo estatístico dos casos de sífilis congênita no Amazonas (2007–2024).
3.2 Evolução temporal e fases epidemiológicas
A análise permite identificar três fases epidemiológicas bem definidas:
- Fase 1 – Linha de base (2007–2014): estabilidade relativa, com média de 151,4 casos/ano e o menor registro histórico em 2010 (100 casos).
- Fase 2 – Escalada epidêmica (2015–2017): ruptura abrupta do padrão histórico. Em apenas três anos os casos saltaram de 315 (2015) para 810 (2017) — crescimento acumulado de 157%. Variações interanuais: +93,3% em 2015, +59,7% em 2016 e +61,0% em 2017.
- Fase 3 – Redução progressiva (2018–2024): trajetória descendente após o pico, com queda mais expressiva em 2020 (-39,5%), possivelmente influenciada pelas restrições da pandemia de COVID-19. Em 2024, foram registrados 257 casos — o menor valor desde 2012.
3.3 Gráfico da série histórica
Figura 1 – Casos anuais de sífilis congênita no Amazonas (2007–2024)
Fonte: SINAN Net / MS. Legenda: ■ Fase 1 | ■ Fase 2 | ■ Fase 3
3.4 Série histórica detalhada
| Ano | Casos | Var. absoluta | Var. percentual |
|---|---|---|---|
| 2007 | 151 | — | — |
| 2008 | 184 | +33 | +21,9% |
| 2009 | 151 | −33 | −17,9% |
| 2010 | 100 | −51 | −33,8% |
| 2011 | 130 | +30 | +30,0% |
| 2012 | 160 | +30 | +23,1% |
| 2013 | 172 | +12 | +7,5% |
| 2014 | 163 | −9 | −5,2% |
| 2015 | 315 | +152 | +93,3% |
| 2016 | 503 | +188 | +59,7% |
| 2017 | 810 | +307 | +61,0% |
| 2018 | 782 | −28 | −3,5% |
| 2019 | 706 | −76 | −9,7% |
| 2020 | 427 | −279 | −39,5% |
| 2021 | 389 | −38 | −8,9% |
| 2022 | 397 | +8 | +2,1% |
| 2023 | 412 | +15 | +3,8% |
| 2024 | 257 | −155 | −37,6% |
Tabela 2 – Casos anuais e variações interanuais, Amazonas, 2007–2024.
4. Discussão
A triplicação dos casos entre 2014 e 2017 reflete um fenômeno observado em âmbito nacional, relacionado a múltiplos fatores:
- Desabastecimento de penicilina benzatina entre 2014 e 2016, comprometendo o tratamento oportuno das gestantes;
- Expansão da cobertura de testagem e notificação, ampliando o registro de casos preexistentes;
- Vulnerabilidades socioeconômicas e barreiras de acesso ao pré-natal, especialmente em populações mais vulneráveis;
- Insuficiência de ações de vigilância e controle em nível municipal.
A tendência de queda após 2017 sugere efetividade — ainda que parcial — das medidas de controle. Contudo, o patamar atual (257 casos em 2024) ainda é expressivamente superior à média pré-2015 (151,4 casos/ano), indicando que a doença permanece como problema de saúde pública relevante.
⚠️ Importante
A queda pronunciada de 2020 deve ser interpretada com cautela: pode refletir subnotificação durante a pandemia de COVID-19, decorrente da reorganização dos serviços e da redução do fluxo de atendimentos pré-natais.
5. Conclusões
- Período de relativa estabilidade entre 2007 e 2014, com média de 151 casos/ano;
- Explosão epidêmica entre 2015 e 2017, com pico histórico de 810 casos em 2017;
- Trajetória descendente a partir de 2018, com 257 casos em 2024;
- Persistência da carga da doença acima do nível pré-epidemia, demandando atenção continuada;
- Necessidade de monitoramento contínuo da qualidade da assistência pré-natal e da cobertura de testagem das gestantes.
Recomenda-se o aprofundamento da análise com dados desagregados por município, faixa etária materna e cobertura do pré-natal, a fim de direcionar intervenções mais efetivas no estado do Amazonas.
Referências
- Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN Net). Casos confirmados notificados no Amazonas.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis. Brasília: MS, 2022.
- DOMINGUES, R. M. S. M. et al. Sífilis congênita: evento sentinela da qualidade da assistência pré-natal. Revista de Saúde Pública, v. 47, n. 1, p. 147-157, 2013.
- SARACENI, V. et al. Desabastecimento de penicilina benzatina no Brasil: impacto na prevenção da sífilis congênita. Cadernos de Saúde Pública, v. 32, n. 8, 2016.
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